terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cimeira ecológica, onde? Só limousines são 1200


Entrevista a Rubén Noé , primeiro transexual que engravidou de gémeos




A nm foi a Barcelona falar com o transexual que andou na «boca» dos espanhóis por ter sido o primeiro no mundo a engravidar de gémeos. Rubén Noé Coronado não vê porque não há-de aproveitar o que a natureza lhe deu e que ele ainda mantém: trompas, útero e ovários (e vagina), que só extrairá do seu corpo quando conseguir ter o filho ou filha que quer. Tentou uma vez, por inseminação artificial (IA), sem sucesso. O aborto aconteceu às 17 semanas de gestação, em Março passado. Eram gémeos, não sabe de que sexo. Recomposto da perda, está a tentar uma nova gravidez por IA, na mesma clínica, em Barcelona, a única que o aceitou - foi a 15 e enviou emails a todas as 155 de Madrid, a maioria recusou-o e muitas ignoraram-no, nem se deram ao trabalho de lhe responder. Isto, apesar de em Espanha a lei que regulamenta as técnicas de procriação medicamente assistida permitir que pessoas como Rubén acedam à inseminação artificial.




A sua decisão gerou imensas rejeições. Muitas pessoas dizem que com a gravidez o que procura é a fama e ser notícia na imprensa...

As pessoas podem dizer o que quiserem. Sei o que desejo, o meu objectivo está muito bem definido. Sejam quais forem as críticas que me fazem, positivas ou negativas, a minha consciência está tranquila. Não faço caso do que dizem, senão ia-me abaixo.



Como é que consegue não fazer caso dos insultos?

Há muitas maneiras de reagir às situações. Tento defender-me, não fazendo caso. Sei que não posso viver numa redoma, por isso aprendi a viver em sociedade, a dar-me com todo o tipo de pessoas, o que inclui, naturalmente, sobreviver às rejeições. Comecei a interiorizar isso quando iniciei o meu processo de mudança de sexo. A transexualidade ensinou-me que não posso ser aquilo que as pessoas esperam que eu seja, ensinou-me que o mais importante é aquilo que eu quero, o que quero alcançar, onde quero chegar e que tenho de percorrer esse caminho, com ou sem ajuda. Cada um de nós tem de tomar as suas próprias decisões, o que exige estarmos preparados para as consequências. As pessoas dizem-me coisas muitos insultuosas, é verdade, enviam-me emails, escrevem comentários no meu blogue sob a capa do anonimato...



Estive a ver o seu blogue. Não fala da transexualidade nem da gravidez, apenas dos seus animais...

Ultimamente não, porque agora quero estar mais tranquilo. Estou a preparar-me para fazer outra vez a inseminação artificial e penso que serei mais bem sucedido se estiver sossegado, sem perturbações. Embora eu tente passar por cima das coisas desagradáveis que dizem, não me são totalmente indiferentes, mexem-me um pouco com os nervos.



Sente que deve dar explicações ao mundo?

Sobre a minha transexualidade e a minha vontade de engravidar, não, não acho que deva explicações a ninguém. Em todo o caso reconheço que tanto uma como outra são questões sensíveis, talvez por serem ainda invulgares.



Na rua também o insultam?

Na rua os comentários são geralmente positivos. De pessoas que dizem admirar a minha determinação e coragem. Sabe, há muita falta de frontalidade, quem diz mal não mostra a cara, não diz o nome, e quem ofende menos ainda. Os comentários negativos são quase sempre anónimos.



Estava de dezassete semanas quando abortou. Por algum problema específico?

Não. Tenho epilepsia que, como deve saber, faz com que a minha fosse uma gravidez de risco, mas não foi a causa do aborto. O problema residiu no facto de serem dois bebés e eu não ter espaço suficiente na minha barriga para eles se desenvolverem. O meu médico explicou-me que isso sucede em certos casos de gravidezes gemelares, a barriga não se expande, provocando asfixia nos fetos e em consequência o aborto. Foi um aborto natural.



Conhecia o sexo dos bebés?

Não. A imprensa espanhola especulou muito, houve quem dissesse que eram rapazes, mas na verdade nunca o soubemos.



Tem preferência?

Não. Também se especulou muito sobre isso, que eu preferia meninos e a minha namorada meninas. Não é verdade. A mim, a nós, tanto faz. Quero é ser pai, esse é o meu objectivo. Esperanza já tem dois adolescentes rapazes, o mais pequeno tem 14 anos e o mais velho 16. Não vivem connosco, por isso não temos essa experiência de criar filhos juntos.



Seria «pai» nesta altura, se não tivesse abortado?

Sim, a esta hora estaria com os dois ao colo [longa pausa]. O parto estava previsto para finais de Setembro.



Como reagiu ao aborto?

[Suspende a respiração] Mal, muito mal. Tive que fazer terapia para ultrapassar a situação. Não foi bem uma sensação de perda o que senti, porque a minha barriga não chegou a ficar grande ao ponto de se notar que algo estava a crescer lá dentro, foi mais a angústia de me confrontar com o adiamento de ser pai, um desejo muito forte em mim. Não sei, não sei definir o que senti. A clínica ajudou-me muito nessa fase, disponibilizou-me uma equipa multidisciplinar composta por um ginecologista, um endocrinologista, um psicólogo e um psiquiatra, que me acompanham ainda hoje. Aliás, é também com base na opinião destes especialistas sobre a minha condição física e psicológica que se «decidiu» se estaria ou não preparado para me submeter a mais um processo de inseminação artificial.



E está?

Sim, e já estou a tentar engravidar outra vez. Quando é que sai esta entrevista em Portugal? Dezembro. Se calhar, nessa altura já estarei grávido outra vez [Rubén prometeu que nos informaria, mas até ao fecho desta edição não recebemos notícias]. Os meus médicos dizem que estou preparado, que não é nada do outro mundo. Da primeira vez não usei medicação, e desta também não. Estou a tentar engravidar da forma mais natural possível, à excepção, claro, do facto de me introduzirem o esperma no meu aparelho reprodutor. Tudo o resto é natural, não é por acção de medicamentos. Não há estimulação da ovulação através de fármacos.



Onde arranjou o esperma? Há quem o compre na internet...

Na internet? [mostra-se surpreso] Não, não. Recorri a um banco, é de um dador anónimo.



Prefere não tomar medicamentos porquê, se a probabilidade de engravidar é maior?

Eu não sou infértil, não preciso de fazer estimulação da ovulação. Está tudo bem comigo, eu posso engravidar, tenho ovulação desde que parei de tomar hormonas, a testosterona. É por isso que prefiro que seja tudo o mais natural possível. Mais natural do que isto só se dormisse com um homem. Mas não quero deitar-me com um homem para engravidar, para mim é muito difícil «fazê-lo» com um homem. Além disso, quero evitar as complicações legais que poderiam surgir caso esse homem viesse mais tarde reclamar o direito de paternidade ou a custódia da criança. Essas «coisas» dão sempre problemas. Mais: por ser uma gravidez mediática, o «pai» poderia eventualmente aproveitar-se e querer retirar dividendos da situação. Não. A opção mais viável foi recorrer a uma clínica de reprodução medicamente assistida. Faço a inseminação com sémen proveniente de um banco de esperma, e pronto, é simples.



Sempre desejou ter filhos ou só pensou neles depois de conhecer Esperanza?

Sempre foi um desejo, nunca quis abdicar da possibilidade de ser pai.



Pai?

Sim, pai. Sou um homem. Um dos momentos mais difíceis dos transexuais masculinos é aquele em que temos que decidir se queremos ser estéreis ou não. A tendência nos transexuais tem sido a de retirar os órgãos reprodutores, mas eu decidi adiar essa cirurgia precisamente porque pensava que se um dia quisesse ser pai poderia sê-lo. Por que havia de tirar o meu útero, os meus ovários, as trompas se queria ter filhos? Por ser transexual? Por querer ser homem? Por ser homem? Um dia irei retirá-los, sim, mas só quando tiver um filho ou filha. Além disso, o meu endocrinologista disse-me que eu podia interromper o processo de esterilização e adiar a cirurgia de redesignação do sexo. Quando conheci Esperanza, a minha companheira, muitas coisas vieram-me à cabeça, entre elas o facto de Esperanza ter dois filhos já crescidos - o mais novo, Pablo, tem sindroma de Asperger e por esse motivo está num centro hospitalar. O mais velho optou por viver com o pai em Málaga, é lá que estuda, é lá que tem os amigos. Nós gostávamos de ter juntos a experiência de ter um filho, como qualquer casal. Basicamente o que queremos com a minha gravidez é isso.



Esperanza não pode engravidar?

Seria demasiado arriscado. Esperanza padece de retinopatia pigmentária, não pode fazer esforços, e com o esforço do parto poderia cegar.



Adoptar não é uma possibilidade?

Considero-me qualificado para criar um bebé. Não me considero capacitado para criar um menino adoptado, que já tem uma bagagem pesada cheia de problemas, traumas. Sei como é, também fui adoptado. Sabe, quando se é adoptado não existe essa coisa de perguntar «quem sou? de onde sou?, para onde vou?» e isso é terrível para uma criança, não saber nada ou saber muito pouco da sua vida, do seu passado, dos seus pais. Adoptar está fora de questão. Um filho nosso, à partida, não desenvolverá o tipo de traumas de um menino adoptado.



Não desenvolverá outros? Não o preocupa os eventuais problemas que a criança possa ter quando souber que o pai afinal é a mãe biológica?

Por essa razão não vejo por que terá problemas. Em todo o caso, penso que são situações incomparáveis, a de um menino nascido e criado no seio de uma família atípica e a de um menino adoptado. Tenho para mim que os traumas das crianças adoptadas estão muito associados ao desconhecimento da realidade, não encontram resposta para as perguntas que têm na cabeça. Qualquer tipo de trauma, seja ele qual for, deve-se em grande medida ao desconhecimento de uma parte da verdade. Isso não acontecerá com o meu filho, ele vai saber de tudo na altura certa, à medida que for crescendo e for capaz de compreender. Independentemente de uma criança ser filha de um casal homossexual, de um casal de lésbicas, de uma mãe solteira ou de um casal atípico, como eu e Esperanza, o importante é proporcionar-lhe um ambiente familiar estável, sólido, com muito carinho e amor, para que seja uma criança feliz e tenha um desenvolvimento normal. Nós podemos garantir isso a um filho nosso. Não haverá melhor pai do que eu no mundo. Não há ninguém com autoridade nem legitimidade para questionar a minha paternidade nem a minha capacidade de ser um bom pai.



Quando iniciou o processo de mudança de sexo?

Em Agosto de 2002.



Quando se apercebeu que tinha um problema de identidade?

Foi uma descoberta. Descobri que era transexual quando saí da aldeia onde nasci e fui para Madrid. Saí de casa aos 18 anos, tinha um passado de inadaptação social; em casa as coisas não eram melhores, não me sentia compreendido pelos meus pais. Em Madrid fui dar com uma associação, não interessa agora explicar porque razão, e lá uma funcionária, ainda me lembro do seu nome, Ana Franco, disse-me claramente, sem papas na língua: «O que tu tens tem um nome, chama-se transexualidade». Sugeriu-me que fosse à AET - Associacion Española de Transexuales, onde encontraria ajuda e informação para as dúvidas que tinha em relação ao que sentia. Fui à AET e aí aprendi que a transexualidade era uma realidade e, mais importante, que me identificava com todas aquelas pessoas, que esse era o meu caminho.



Até aí como se sentia com o corpo de mulher? Nunca desconfiou de que poderia ser transexual?

Não, essa palavra não existia no meu vocabulário, não sabia que a transexualidade existia. Em relação ao meu corpo, não pensava nele, não tinha consciência daquilo que eu era. Quando não conhece uma realidade, não pensa sobre ela, certo? Foi o que me aconteceu. Não pensava nisso, simplesmente. Não me preocupava se era mais masculino ou mais feminino, só sei que me sentia estranho e isso, sim, era um conflito para mim. Mas eram tantos os meus conflitos, que de todos esse era o menos importante.



Não namorava?

Não, enquanto mulher nunca tive namorados nem relações sexuais. Mantinha-me em absoluta asexualidade. Era uma pessoa anti-social, não saía com os colegas, não praticava desporto fora da escola, convivia somente com a minha cadela e os meus pais. Eles levavam-me para todo o lado com eles, mas eu não conseguia interagir com as pessoas. Na escola falava com os colegas, mas mesmo aí mantinha-me recatado, afastado.


O que fez assim que descobriu que era transexual?

Primeiro, tive que entender o que se passava comigo, que afinal não era o que socialmente as pessoas pensavam e esperavam de mim. Depois de «digerir» a situação, tive que aceitá-la, procurei ajuda. Encontrei-a na Fundación Sexpol [Associação para o Desenvolvimento da Saúde e do Bem-Estar Sexual, em Madrid], porque era o único sítio onde poderia receber acompanhamento psicológica gratuito (nessa altura não tinha dinheiro, não poderia pagar esse apoio). Na Sexpol disponibilizaram-me um psicoterapeuta, que me seguiu e diagnosticou, disse-me que o meu problema era um problema de género e encaminhou-me então para um endocrinologista que me receitou as hormonas de testosterona. A partir daí iniciei o processo de mudança de sexo.



Quando começaram a surgir as primeiras transformações?

Não demoraram muito tempo. Na transexualidade masculina as mudanças acontecem depressa. A testosterona tem uma actuação bastante rápida. No segundo ou terceiro mês notei uma alteração da voz, tornou-se mais grave, fiquei com voz de homem como se costuma dizer. No quarto mês este osso aqui [aponta para a maçã de Adão] começou a ficar saliente. No sexto mês surgiram-me pêlos na cara, no peito e nas pernas, esse tipo de coisas. Pouco a pouco, foram-se passando coisas no meu corpo que me fizeram sentir mais eu. É uma alegria verificares a cada dia que passa as transformações no teu corpo e sentires que agora sim, começas a identificar-te com aquilo que vês no espelho. No espelho e não só, cá dentro também, sentes que estás a ir pelo caminho certo e que tudo vai ficar bem contigo. [ri] Cada pelito novo que nasce na cara é uma alegria, significa muito.



Pouco depois conheceu Esperanza...

Quando vi Esperanza a primeira vez foi numa festa, senti logo qualquer coisa por ela. Ela não me ligava, dizia que eu era ainda um menino. Eu já era fisicamente um homem, mas temos uma grande diferença de idades (tenho 26 anos, ela tem 43). Começámos por ser amigos, trocávamos correspondência, escrevíamos emails. Esperanza continua a dizer-me que não se enamorou logo por mim, mas investigou-me na internet para ver se eu estava no Facebook, no Hi5. Ela achava-me graça e sobretudo persistente – eu telefonava-lhe todos os dias, mandava-lhe emails. Conquistei-a.



Esperanza foi a primeira namorada?

Não, tive três namoradas antes. Elas sabiam da minha transexualidade, claro, e tiveram problemas com isso. Despertei para a sexualidade apenas a partir do momento em que descobri que era transexual. Antes de ser transexual, não tive relações com ninguém, não tive namorados, não me interessava.



Nem com a gravidez se sentiu mulher? Saber que dois bebés estavam a crescer dentro de si... Como se sentia?

Feliz. Sentia-me feliz. Os meus objectivos são muito claros. Quero ser pai e se para isso tenho de utilizar o que a natureza me deu, não vejo problema algum. Vivi todos os momentos em que estive grávido com muita emoção, muita alegria e expectativa, mas nunca me vi grávido, porque não cheguei a ter a barriga muito grande. A expectativa sim, era grande. Esperanza e eu passávamos pelas lojas de produtos para bebés e ficávamos parados a olhar para as montras. Víamos coisas muito bonitas e ficávamos ali, a escrever uma lista na nossa cabeça das coisas que tínhamos de comprar.



Compraram alguma coisa?

Não. Tínhamos medo. Esperanza disse-me que até ao sexto mês não devíamos comprar nada para o bebé, que não era o momento. Suponho que era por superstição, mas também em parte porque ainda não sabíamos onde seria a nossa morada definitiva. Se nos mudássemos, seria melhor não termos que transportar muita coisa. Além disso, eu estava sempre muito agoniado, não tinha muita disposição para andar às compras.



Como reagiram os seus pais à transexualidade e à gravidez?

São muito antiquados. Em relação à transexualidade, a minha mãe acabou por aceitar, o meu pai não, nunca conseguiu, o que, naturalmente, levou a que nos afastássemos mais, raramente falamos, as conversas que temos são cordiais sem serem amigáveis. Com a minha mãe a relação era mais tranquila - ela morreu em Setembro do ano passado, antes da minha gravidez. Não sei como ela reagiria a isso. O meu pai julgo que soube da minha gravidez, mas como não temos uma relação de afecto não lhe perguntei o que achava e ele também não me disse.



E o resto da família?

Não tenho irmãos, tenho tios e primos, falamos de vez em quando. Não quero que se metam nos meus assuntos, por isso não alimento conversas sobre a minha vida privada. Também não me meto na deles. Prefiro assim. Quero viver sem sobressaltos, com tranquilidade. Cada um segue o caminho que tem de seguir. Eu quero-lhes bem, gosto muito deles e eles de mim, estou certo disso. Ainda no outro dia estava ao telefone com uma tia, disse-lhe que ainda tenho o palhaço que ela me ofereceu quando eu tinha cinco anos. Prefiro que os meus familiares se mantenham à parte deste processo, para que não sejam incomodados.



Em todo o caso, não lhe faz falta essa retaguarda familiar?

Mas que melhor apoio poderia eu desejar senão o da minha mulher? Não sou ainda casado com Esperanza, mas ela é a minha mulher, é a minha companheira. E como casal, queremos ter um filho juntos. Não é isso que querem os casais? O apoio que precisamos é um do outro. É disso que precisam os filhos, que os pais se apoiem, gostem um do outro, se tratem bem, que tenham uma vida conjugal de afectos. Ponto. Se isso não existir num casal, então não são um casal. A minha gravidez é tão complexa – quero dizer, complexa socialmente, porque as pessoas têm dificuldade em entendê-la e aceitá-la –, que o melhor é evitar todo o tipo de pressões sobre este assunto.



Chegaram a pensar em nomes para os bebés?

Quando estava grávido sim, pensamos em alguns nomes de menino e de menina. Desta vez não, vamos esperar. Não quero especular...



E o seu nome, escolheu Rubén Noé porquê?

Estefánia é um nome comprido, chamavam-me Fanni e eu não gostava. Então, para evitar que os outros adoptassem diminutivos feios, procurei um nome curto. Pensei em Noé. Só que Noé confundia-se com Noemi, Noeli, era ambíguo, tanto dava para homem como para mulher. Lembrei-me de um nome mais masculino, que não levantasse dúvidas. Rúben. Rubén Noé. É nome de homem.



Acabou de mudar de casa e de cidade. Da pequena localidade de Berga passou para a grande Barcelona. Porquê?

Gosto de Barcelona, é uma cidade aberta. Madrid também poderia ser uma opção. Corri praticamente toda a Espanha vivendo num sítio e noutro com a minha namorada, e dos sítios por onde passámos, Barcelona foi a cidade de que mais gostámos. Ela é funcionária da ONCE [Organización Nacional de Ciegos Españoles], o que a obriga a deslocar-se com frequência e eu acompanhava-a, porque a minha profissão - sou carpinteiro e faço algum trabalho de vigilância – posso exercê-la em qualquer lugar. Neste momento estou desempregado. Chegámos agora a Barcelona, ainda não encontrei trabalho.



Acha que aqui em Barcelona vai viver mais tranquilo? Será mais fácil a um homem grávido passar despercebido?

Despercebido não diria, mas aceite sim. Se a minha preocupação fosse passar despercebido, então teria ido para Madrid. Barcelona é uma cidade aberta a toda a diversidade, as pessoas são mais tolerantes, e do ponto de vista dos acessos praticamente nenhuma cidade em Espanha oferece tantas vantagens nem tantas condições para pessoas com dificuldades de visão como Esperanza (é uma cidade plana). Barcelona tem tudo para sermos felizes. Penso que aqui poderei andar na rua sem o olhar das pessoas fixo em mim como se fosse de outro planeta. Olharão para mim e pensarão que sou um homem gordo, com uma barriga proeminente.



As pessoas com quem se cruza na rua reconhecem-no dos jornais e da televisão como o transexual que engravidou de gémeos?

Algumas pessoas reconhecem-me, são simpáticas. Algumas perguntam-me: «Você é o homem grávido? Vi-o na televisão...». Eu digo que sou, claro. As pessoas olham para mim e ficam de boca aberta, porque vêem um homem, acham inacreditável que eu seja aquele grávido, não acreditam que eu nasci mulher. Mais dia menos dia a sociedade vai ter que mudar e aceitar que há outras realidades distintas daquela em que vive a maior parte das pessoas. Há mundos mais pequenos que também existem.



Como é que a sua gravidez se tornou pública? Foi o Rúben que a divulgou aos jornalistas?

Não.



Foi a clínica?

Não, não creio que tenha sido a clínica, porque uma das condições sine qua non que a clínica me impôs para aceitar fazer-me a inseminação foi o anonimato.



Então o que terá acontecido?

Não faço ideia. Sei que um dia me telefonaram de um jornal e me disseram: «Sei que está grávido, gostaria que me concedesse uma entrevista». Hesitei, mas insistiram, acabei por aceitar. Sabe, tive receio de que se não falasse, se não expusesse as minhas razões, alguém faria isso por mim, dando azo a especulações e mentiras. Por outro lado, pensei que a exposição do meu caso seria uma forma de ajudar outras pessoas, outros transexuais que estariam a viver a mesma situação em silêncio.



Serviu-lhe de alento o caso de Thomas Beatie, o transexual americano que já vai no segundo filho, de uma segunda gravidez?

Eu sempre desejei ter filhos e teria engravidado mesmo que mais nenhum transexual antes de mim o tivesse conseguido. De resto, o caso dele não me serviria de alento porque as pessoas complicaram-lhe a vida. Eu apenas fui insultado, mas ele recebeu ameaças de morte.



Acha que no futuro haverá muitos casos como o seu e o de Thomas Beatie?

Não tenho dúvida disso. A sociedade muda, evolui. Tem de evoluir. Acho até que deve haver outros casos anteriores ao de Thomas Beatie, simplesmente mantiveram-se fora da comunicação social. O meu caso e o caso de Thomas Beatie será assim tão diferente dos de homens e mulheres que são pais e mães e a dada altura da sua vida mudam de sexo? Há pessoas que descobrem e assumem a sua transexualidade depois de terem filhos. Esses casos existem. Não se pode ignorá-los. Não são novidade, simplesmente parecem invisíveis, interessa a uma sociedade que tem medo da mudança, não interessa vê-los. Penso que no futuro estas situações não serão consideradas aberrações. Eu não sou uma aberração. Já fui abordado por um transexual masculino como eu que também queria engravidar e não sabia o que fazer. Creio que o importante na minha exposição pública é abrir portas e criar opções, esclarecer quem vive uma situação semelhante.



Há pessoas que lhe escrevem no blogue a dizer que estão a viver a mesma situação?

Não, no blogue os comentários geralmente são anónimos e quase todos para me insultar.



Acusam-no de zoofilia. Que história é essa?

É um absurdo. Gerou-se uma polémica à volta de uma fotografia com os meus animais que não passa de uma ilusão óptica. Não sei se viu a foto. As pessoas vêem o que querem ver.



Se engravidar outra vez e levar a gravidez até ao fim, juridicamente quem vai ser a mãe?

Eu. Todo o processo está a decorrer como eu sendo mãe solteira.



Mantém o nome de baptismo no cartão de identidade?

Sim [mostra o passaporte].



Aos olhos da lei o Rubén é uma mulher. ..

Exactamente.



Então, nada na lei espanhola [Lei 14/2006, de 26 de Maio sobre as Técnicas de Reprodução Humana Assistida] o impede de recorrer à inseminação artificial...

Está tudo conforme a lei, caso contrário a «minha» clínica não me aceitaria.



Se o Rúben vai ser legalmente a mãe, Esperanza será o quê para a criança?

Na prática, será a mãe. Para nós não há qualquer confusão. Aos olhos da lei, eu sou a mãe, sou a mãe biológica. Mas «dentro de casa», que é como quem diz, na nossa vida diária, quem decide esse papel sou eu e Esperanza. Vamos construir a nossa família como tantas outras o fazem. Para a criança eu serei o pai, Esperanza a mãe. E quando chegar a altura certa, dir-lhe-emos a verdade, explicaremos tudo. Não há que haver confusões. Além disso, depois do parto continuarei o tratamento hormonal com testosterona e farei a cirurgia de redesignação sexual. Serei um homem por inteiro. E quanto ao meu nome de baptismo, depois da cirurgia poderei mudá-lo [no Registo Civil].



Vai ser fácil explicar isso a uma criança?

Acho que as crianças entendem as coisas de uma forma mais simples e aceitam-nas mais facilmente.



O seu corpo é então um instrumento para atingir o objectivo de ser pai?

O meu corpo não, os meus órgãos reprodutores. E quando esse objectivo estiver concretizado, então sim, estarei preparado para extrair tudo o que ainda me resta de mulher, farei a cirurgia para retirar o útero e os óvarios e a cirurgia de redesignação de sexo. Nessa altura sentir-me-ei completo.



Em que clínica está a fazer a inseminação artificial?

Não posso revelar. Foi esse o acordo que fiz com a clínica.



Porquê? A clínica tem receio de que a classe médica em peso lhe «caia» em cima?

Não é por isso, é porque quer manter a privacidade dos outros pacientes. Nenhum casal deseja chegar à clínica para fazer um tratamento e deparar-se com cinquenta jornalistas à porta. Uma clínica deste tipo tem que garantir privacidade. Sendo a minha gravidez uma gravidez mediática e polémica, alguém poderia lembrar-se de fazer manifestações em frente à clínica. Há outra razão: fui inserido num estudo clínico, pelo que o nome da clínica não deve mesmo ser divulgado



Tentou outras clínicas antes dessa?

Muitas. Pessoalmente fui a 15 e enviei emails a todas as 155 clínicas [de Procriação Medicamente Assistida] existentes em Madrid. Todas me disseram que não, que era imoral, que não era ético. Outras nem sequer me responderam. Esta foi a única que me aceitou.



Quanto dinheiro já gastou na inseminação artificial? A imprensa espanhola falou em 16 mil euros...

Não é um processo barato, mas não chega a esses valores. Gastei muito menos. Não me importava de dizer-lhe quanto, simplesmente não posso, porque o valor identifica a clínica. Cada uma tem o seu preço.



Quem paga?

Nós. Eu e Esperanza, quem mais?



Gostaria que me falasse um pouco do seu passado. Viveu num orfanato, foi adoptado mas só o soube mais tarde...

Soube quando tinha sete anos, por um colega da escola. Eu vivia numa localidade muito pequena, toda a gente sabia da vida de toda a gente. Fiquei a saber assim. Fui logo para casa e perguntei à minha mãe se era verdade. Com o passar do tempo, essa revelação não me saía da cabeça e então decidi procurá-la, saber quem era a minha mãe biológica. Encontrei-a, mas nunca falei com ela. Apenas quis saber quem era. Porquê? Porque entendo que a procura da identidade só vale a pena se formos capazes de a aceitar, de a digerir. Eu não sei se seria capaz disso. Em todo o caso, não tinha necessidade de conhecê-la. Saber quem era sim, conhecê-la, falar com ela, não. Eu sou um bocado assim: se preciso procuro, se não preciso fico quieto, deixo como está. Eu sei a minha história. A minha história é a história de uma gravidez indesejada, complexa, de uma menina de 17 anos nos anos 60 que não teve condições para me ter e então fui parar a um orfanato e mais tarde a casa de uma família que me acolheu.



A imprensa irá certamente disputar as primeiras fotografias do seu futuro bebé. Vão ter um preço, essas imagens?

Há que reconhecer que essas não serão umas fotografias quaisquer. Essas fotos terão um preço, sim.





Eurico Reis



«A lei deve ser alterada»



Um caso como o de Rubén não é permitido legalmente em Portugal. Não por ser transexual, mas porque a legislação apenas permite o acesso às técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA) a casais heterosexuais inférteis, casados ou em união de facto registada, e com um projecto parental. Mulher solteira, fértil ou infértil, que não tenha parceiro ou não queira ter relações sexuais com um homem para engravidar, não pode recorrer aos centros de PMA, públicos ou privados. Deve ser por isso que há quem arrisque a inseminação artificial caseira, com todas as complicações legais e de saúde inerentes, e o «turismo de fertilização» em países com menos restrições nessa matéria.

A lei portuguesa (32/2006, de 26 de Julho) veda-lhe a PMA, mas em Espanha não há nada que impeça Rubén de ser inseminado com esperma de um dador anónimo. É transexual, mas ainda tem vagina, ovários, trompas e útero, o que aos olhos da lei espanhola lhe confere identidade feminina, sendo que o facto de não ser casado também não é impedimento, já que ao abrigo da lei 14/2006, de 26 de Maio sobre a Reprodução Humana Assistida (é assim que se diz em Espanha) «a mulher poderá ser utilizadora ou receptora das técnicas regulamentadas, independentemente do seu estado civil e da sua orientação sexual». Rubén é espanhol e foi numa clínica em Barcelona que engravidou no início deste ano, depois de rejeitado pelas 155 clínicas de Madrid - o preconceito mora em todo o lado e muitas vezes sobrepõe-se à lei. Rubén abortou às dezassete semanas de gestação e neste momento tenta uma segunda vez.

Por cá, tão cedo não será possível a pessoas como Rubén recorrer aos centros nacionais de PMA, públicos ou privados. A transexualidade faz confusão a muita gente e mais confusão fará a gravidez de um transexual masculino que nasceu mulher mas que até aos 18 anos não «encaixava» no corpo que a natureza lhe deu e decidiu iniciar o processo para se tornar homem. É-o na «alma» e na aparência física também, mas só o será «por inteiro» quando tirar os seus órgão reprodutores femininos e se submeter à cirurgia de redesignação sexual com colocação de um pénis, o que deixou para mais tarde, para quando já tivesse gerado um filho.

Qual é o mal? A pergunta fizemo-la ao juiz desembargador Eurico Reis, na qualidade de cidadão e de presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA), entidade a quem compete, justamente, pronunciar-se sobre as questões éticas, sociais e legais da aplicação das técnicas de PMA em Portugal. «Depende do ponto de vista com que observamos o mundo. Há várias perspectivas éticas: há pessoas que acham que qualquer transformação naquilo que a natureza criou é um pecado, uma aberração; a minha perspectiva é diferente. Não sou hedonista, não aceito que o princípio do prazer se deve sobrepor a todos os outros princípios. Do ponto de vista filosófico, sou mais estóico. Defendo que o nosso direito termina onde o direito dos outros começa; temos que ter a noção de que nem tudo o que queremos pode ser alcançado». Em todo o caso, «reconheço que a lei portuguesa da PMA é conservadora» e «seria mais humana se permitisse o acesso às técnicas de PMA a mulheres solteiras férteis e a transexuais como Rubén, desde que exista um projecto parental bem estruturado».

A transexualidade, diz, «pertence ao domínio da privacidade e da intimidade» de cada um, pelo que nem o Estado nem os membros da comunidade têm o direito de interferir se nenhum direito de terceiro estiver a ser violado». Este juiz vai «buscar» à Constituição americana uma frase definidora daquilo que pensa e lamenta que esse conceito não se aplique a mais nenhum outro texto constitucional no mundo: «O direito à busca da felicidade». Não é o direito à felicidade, porque «a felicidade é difícil de definir, não há uma felicidade geral, cada um é feliz à sua maneira, o que pressupõe que se uma pessoa não se identifica com o corpo que a natureza lhe deu, tem o direito de procurar ser feliz, mesmo que para isso tenha de o mudar».

No caso de Rubén, o seu quinhão de felicidade não está só na mudança de corpo e de sexo, está também em ter um filho, em ser «pai», mesmo que para isso tenha de fazer inseminação artificial e ir contra a ética e a moral ditadas por uma sociedade que recusa a diferença e o que foge aos padrões estabelecidos. «Casos como o de Rubén não me fazem confusão, mas percebo que não se pode ignorar uma matriz conservadora que ainda existe e que é fruto de séculos, instituiu-se nos tempos da Inquisição. Foram anos de obscurantismo que só terminaram no dia 25 de Abril de 1974. A democracia no nosso país tem 35 anos e o lastro do passado não é fácil de eliminar de um momento para o outro. Leva tempo».

A lei nacional é conservadora, mas Eurico Reis entende porquê. «A legislação tem de caminhar a par da sociedade», que é como quem diz, tem de reflectir o que vai na «alma» colectiva. «O legislador não pode estar cinco passos à frente do pensamento comunitário, sob pena de fazer leis que não vão funcionar». O presidente do CNPMA está optimista. «Vamos com calma. A sociedade evolui, ou involui, consoante aos casos. Neste em particular, acredito que chegaremos ao dia em que teremos uma lei da PMA em Portugal menos restritiva. Até porque o argumento da natureza... o que é a natureza? A natureza é a diversidade, é a diferença. As pessoas que fogem ao padrão normal são também elas próprias normais, porque foi assim que a natureza as criou. A sociedade devia acolhê-las. Não é tolerá-las, é aceitá-las como pessoas de plenos direitos, é acolhê-las». À luz disto, Eurico Reis considera que o mais importante para as crianças – que é do que se trata quando falamos do caso de Rubén -, sejam filhas de um casal de gays ou de lésbicas, de trangéneros ou de uma mulher ou pai solteiros, «é que sejam amadas e tenham, de preferência desde a gestação, um ambiente emocional estável, com carinho». «O que é preciso é que a criança tenha uma família e a família é o quê? É a família emocional. No último quarto do século XX passamos felizmente da família de interesses para a família de afectos».
por Carla Amaro. Fotografia Rui Coutinho





"Estudantes por Empréstimo" - O TEATRO COMO PLATAFORMA POLÍTICA




Em “Estudantes por Empréstimo” o teatro serve de instrumento à democratização da política. O público abandona as cadeiras para ser parte activa da cena, desconstruir o fim da peça e encontrar soluções para os problemas financeiros dos estudantes do Ensino Superior. José Soeiro quer levar as propostas saídas deste teatro legislativo à Assembleia da República.


“Toda a gente pode fazer política, até os políticos”. A frase de José Soeiro é versada numa outra afirmação polémica: “Toda a gente pode fazer teatro, até os actores”, de Augusto Boal, actor, encenador e dramaturgo brasileiro, responsável pelo nascimento do Teatro do Oprimido. Na verdade, a encenação faz parte da vida do deputado do Bloco de Esquerda há já alguns anos e por isso, José Soeiro quis fundir as duas vertentes da sua vida.





“Este projecto [“Estudantes por Empréstimo”] surgiu da vontade de aplicar a metodologia do Teatro do Oprimido à política”, ou seja, “versar sobre o problema das pessoas e tentar encontrar ideias criativas para o resolver”, declara José Soeiro. E assim nasceu o primeiro projecto nacional de teatro legislativo, uma espécie de “teatro-fórum”, uma tentativa de “democratizar a política parlamentar”.



A história de “Estudantes por Empréstimo” é a história de “milhares de estudantes em todo o país”. “Surgiu durante um fórum de alunos universitários, quando se abordaram as dificuldades relativas à Acção Social e ao sistema de empréstimos no Ensino Superior”, recorda o deputado do BE.



Neste espectáculo a peça não tem um final escrito. Depois de concretizada a encenação lança-se a questão ao público: “O que é que podemos fazer? Como é que o problema pode ser resolvido?”. É então que as pessoas “são obrigadas a sair da cadeira”, “a transformarem-se em espect-actores” e a criar novos argumentos, novos cenários, com base na legislação nacional.



E, é deste modo, “através do comportamento individual, mas da acção colectiva”, que se encontram soluções para o problema, explica José Soeiro.



Repensar a legislação / resolver o problema



É nesta dupla componente – política e social – que reside o cerne do projecto. Após as sessões até agora realizadas (apresentação pública do projecto decorreu no passado dia 1, no Porto), há já “uma série de propostas e dezenas de sugestões de leis que são necessárias criar”.



Convocar assembleias, contactar os serviços de Acção Social e reunir com a reitoria foram alguns dos finais sugeridos. Os espectadores propuseram ainda que se aumentasse a transparência na Acção Social e a informação sobre os critérios da Acção Social, uma mudança da capitação média e um reforço das verbas. “As ideias surgem de uma forma muito envolvente, porque as pessoas reconhecem-se e projectam-se na peça”, justifica José Soeiro.



Estas sugestões serão transformadas em propostas que o Bloco de Esquerda apresentará na Assembleia da República. O deputado quer ainda convidar os participantes neste projecto a ir à Assembleia, no próximo mês de Maio, para discutir o assunto.


Via estudantesporemprestimo.blogspot.com notícia do Jornal UP - Universidades e Politécnicos







sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O que é Teatro do Oprimido e Teatro Legislativo?

O que é Teatro do Oprimido e Teatro Legislativo?






O Teatro do Oprimido é teatro na acepção mais arcaica da palavra: todos os seres humanos são actores, porque agem, e espectadores, porque observam. Somos todos espect-actores. (…) Creio que o teatro deve trazer felicidade, deve ajudar-nos a conhecermos melhor a nós mesmos e ao nosso tempo. O nosso desejo é o de melhor conhecer o mundo que habitamos, para que possamos transformá-lo da melhor maneira. O teatro é uma forma de conhecimento e deve ser também um meio de transformar a sociedade. Pode nos ajudar a construir o futuro, em vez de mansamente esperarmos por ele.



Augusto Boal, in Jogos para atores e não atores






O Teatro do Oprimido (TO) é uma metodologia de trabalho político, social e artístico e é um género teatral criado por Augusto Boal, encenador, dramaturgo e teatrólogo brasileiro. Bebendo as suas influências quer numa análise crítica sobre a evolução histórica do teatro, quer nos métodos pedagógicos de Paulo Freire, o TO propõe toda uma nova forma teatral que assenta na abolição da relação tradicional espectador/actor, para colocar no centro da prática dramática o espect-actor – não mais o espectador passivo, mas um interveniente na cena teatral. A base do TO é a exploração de situações de opressão e a valorização da capacidade criadora e criativa de todas as pessoas, em particular dos oprimidos. Isto acontece porque, depois do problema apresentado (uma pergunta ao público, sob a forma de teatro), os espect-actores podem substituir as personagens oprimidas e podem mudar a história, não apenas sugerindo como devia ser, mas actuando e confrontando-se com as outras personagens.



No Teatro Legislativo, exploramos uma história concreta que exprime um problema. Identificam-se os conflitos que estão em jogo e os obstáculos à resolução da situação. Esses obstáculos podem ser variados: pode ser um comportamento individual ou colectivo, pode ser uma relação de poder e pode ser uma lei ou um conjunto de leis que impede as pessoas de acederem aos seus direitos ou que consagra uma relação injusta, de desigualdade, de opressão ou de exploração. O Teatro Legislativo é a utilização da metodologia do Teatro do Oprimido para mudar a lei, discutindo as alterações necessárias às leis que existem a partir de histórias concretas, mas também testando as formas de organização colectiva que são necessárias para construir uma relação de forças diferentes que imponha uma lei mais justa.



O Teatro Legislativo é uma forma de humanizar a política: quando temos pessoas concretas e com nome à nossa frente, sabemos que a violência, o desemprego, a discriminação, são marcas reais em corpos verdadeiros, e não apenas conceitos abstractos para discursos inflamados. O Teatro Oprimido – e, dentro dele, um projecto de Teatro Legislativo – é uma das formas possíveis de democratizar a política: ele não requer que as pessoas possuam qualquer linguagem técnica (o que muita gente chama por vezes da “linguagem dos políticos”) para se exprimirem. Ele impele as pessoas a falarem da sua vida através da sua própria presença – corpo, voz, movimento – e facilita por isso a expressão das pessoas num código que não as põe à partida em desvantagem, relegando-as para a categoria de “incompetentes políticos”, mas que as reconhece como as mais competentes na expressão da sua realidade. Por último, o Teatro do Oprimido (e, dentro dele, o Teatro Legislativo) é uma forma activa, entusiasmante e envolvente de discutir política porque despoleta o debate a partir da humanização da discussão e de uma história concreta. Desinstitucionaliza o debate político e abre novos espaços de conflito e de alternativas

in estudantesporemprestimo.wordpress.com

O teatro como política contra a política como teatro

Quando Augusto Boal resolveu adaptar para o teatro o apelo de Marx, sugerindo que era tempo dos oprimidos se apropriarem dos meios de produção teatral - ou seja, de deixarem de ser espectadores passivos para assumirem a sua condição de actores - não imaginava talvez que esse seria apenas o primeiro passo de uma longa história que juntaria teatro e política. Uma história que continua, que reuniu no mês passado 12 mil indianos numa marcha pelo país (para fundar a Federação de Teatro do Oprimido) e que juntará umas quantas pessoas em Lisboa na próxima semana, para o I Encontro Nacional de Curingas.

Mas afinal que história é essa? E por que mobiliza hoje o Teatro do Oprimido (TO) umas dezenas de milhar de pessoas em mais de 70 países? A ideia central é simples: aquilo que existe é apenas uma possibilidade, a realidade deve estar sempre aberta a interrogação e mudança e, por isso, podemos usar a linguagem teatral - a capacidade de nos observarmos em acção - para encenarmos episódios da nossa vida e ensaiarmos finais diferentes para as histórias de opressão.
Foi na década de 1970 que se começou a superar o teatro político pelo entendimento do teatro como uma das formas possíveis de fazer política. Ou seja, a substituir um teatro de propaganda revolucionária feita para o povo, por um teatro emancipatório feito pelo povo. O TO entende que não basta promover o acesso a peças feitas por profissionais, porque o importante é permitir que toda a gente possua os meios de dramatização da sua própria realidade. O teatro político não é aquele que impinge soluções determinadas por outros, mas o que dá às pessoas o protagonismo de ensaiar e escolher as soluções que fazem sentido para a sua vida.

Como é que isto se faz? Permitindo a todos que se exprimam através do teatro - "toda a gente pode fazer teatro, até mesmo os actores!" -, levando a representação para o espaço público - "o teatro pode ser feito em todos os lugares, até mesmo nos teatros!" - e transformando o público em "espect-actores" que participam directamente na cena para a mudar. Num espectáculo de teatro-fórum, o público não deve bater palmas no fim, mas invadir o palco para transformar a história.

Nos anos 90, Boal foi eleito vereador no Rio de Janeiro e um novo passo foi dado: por que não utilizar o teatro-fórum para transformar o próprio cidadão em legislador? Assim nasceu o teatro-legislativo: a equipa parlamentar era formada por animadores que dinamizavam, em grupos e associações, sessões de teatro-fórum. Aí se encenavam os problemas concretos vividos e se propunham formas de eles serem resolvidos: através da acção directa na situação, mas também da mudança das leis. O mandato podia então ser devolvido às pessoas: ser revolucionário era mudar a relação dos cidadãos com a política, promovendo a apropriação do poder pelo povo. Assim se combinava organização à volta de assuntos específicos (empregadas domésticas, estudantes, imigrantes, sindicalistas, homossexuais, camponeses, etc.), democracia cultural, acção directa e produção legislativa a partir das soluções propostas nos espectáculos de teatro.

Hoje, o Teatro do Oprimido é usado em diferentes contextos. No Brasil, Boal e a sua equipa trabalham sobretudo em prisões e com o Movimento dos Sem Terra. Noutros países, houve a tendência para esta técnica ser apropriada pelo Estado e pela intervenção social, perdendo em radicalidade e estando menos na posse dos oprimidos que na mão dos técnicos. Mas não tem de ser assim. Em Portugal, o TO dá os primeiros passos: em hospitais, escolas, centros sociais, associações de imigrantes, bairros, comunidades... E vai promovendo a mudança e a discussão sobre os problemas.

Se é difícil entusiasmar as pessoas pela política quando ela é monopolizada por profissionais de promessas e bastidores - a política como teatro - podemos talvez fazer o contrário: recuperar o gosto da política como discussão e acção colectiva, usar a palavra e o corpo - o teatro como política.

José Soeiro

Israel propõe campos de trabalho para imigrantes ilegais

por Dana Weiler-Polak, correspondente do diário Haaretz





O governo está a considerar a possibilidade de criar campos de trabalho no Sul do país, em que imigrantes ilegais serão alojados, alimentados e receberão assitência médica, segundo referiu na 4ª feira a Rádio do Exército. Em contrapartida, os imigrantes ilegais levariam a cabo trabalho braçal fora dos campos, mas não receberiam salário.



Eles permaneceriam nos campos enquanto os seus pedidos de asilo fossem despachados, o que poderia demorar meses ou anos.



A proposta, que faz parte do esforço para enfrentar os problemas colocados pelos imigrantes ilegais, colocaria os candidatos a asilo em comunidades do deserto de Negev e Arava. Os seus salários seriam pagos ao Estado, para financiamento dos campos.



A questão dos imigrantes estrangeiros ilegais e dos refugiados fez manchetes devido aos esforços de organizações de direitos humanos para impedir a deportação das crianças de 1.200 trabalhadores estrangeiros. Um dos principais argumentos dos defensores da deportação, incluindo o Ministro do Interior Eli Yishai (do partido Shas, [da extrema-direita]), era que permitir-lhes permanecer iria atrair centenas de milhares de imigrantes ilegais além destes.



Eles trariam “uma série de doenças, como hepatite, sarampo, tuberculose e SIDA, [bem como] drogas”, afirmou Yishai.



“Receio que tenhamos caído muito baixo”, afirmou o deputado Dov Khenin (do partido Hadash) ao reagir à proposta de campos de trabalho, e acrescentou que em sua opinião o plano encorajaria mais candidatos a asilo a tentarem entrar em Israel.



“O plano induziria refugiados a virem para Israel. Uma cama é um incentivo em comparação com os países de origem deles. Israel tem o direito de fechar as suas fronteiras, mas quando alguém vem para cá não se pode lutar contra esse alguém. Isto mostra que não aprendemos nada, como povo que vive num país criado por refugiados para refugiados”, acrescentou Khenin.



A acrescentar à oposição de grupos de direitos humanos, as comunidades do Sul poderão tão-pouco responder favoravelmente ao plano. Em Abril de 2008, durante uma audiência em tribunal sobre a política governamental de colocar demandantes de asilo nos subúrbios Norte e Sul, a Norte de Hadera e a Sul de Gedera, foi apresentado ao tribunal um memorando sobre as perspectivas de emprego dos imigrantes. No documento, Sigal Rosen, da Linha Vermelha para Trabalhadores Migrantes, declarou que os kibbutzim do Sul não tinham mostrado interesse em contratar os migrantes.



“Contactámos muitos kibbutzim num esforço para obter a libertação de demandantes sudaneses de asilo para trabalho agrícola”, disse ela. “Apesar de reconhecerem a sua desesperada necessidade de trabalhadores, a maioria dos coordenadores dos kibbutzim recusaram o meu pedido ao tomarem conhecimento de que teriam de pagar aos demandantes de asilo um salário mínimo estipulado por lei e que não poderiam fazer no seu salário deduções [de despesas] para além do que determina a lei sobre trabalhadores estrangeiros”.



Rosen contactou centenas de potenciais empregadores dos kibbutzim e das comunidades agrícolas moshav, mas muito poucos estavam interessados. No final, apenas 14 moshavim e dois kibbutzim concordaram em contratar imigrantes sudaneses como trabalhadores agrícolas.



Ontem também a Amnistia Internacional criticou a proposta. O director do grupo em Israel, Itay Epstein, comentou: “A ideia louca de alojar à força refugiados em campos de trabalho no Sul é contrária ao direito internacional e a todos os tratados internacionais que Israel subscreveu”.



E acrescentou que “Israel está obrigado a proporcionar aos refugiados e demandantes de asil que lhe batem à porta um porto seguro, [bem como certos direitos], que incluem o direito a viver com dignidade, a trabalhar e a ganhar o seu sustento. Com certeza que eles não devem ser empregados à força, aproveitando nós da miséria dos sobreviventes de genocídios e de perseguições”.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Finta 2009 Imperdível!


Não, não é cansaço...



Não, não é cansaço...


É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar.

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Como tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.



Álvaro de Campos

Há metafísica bastante em não pensar em nada.



Há metafísica bastante em não pensar em nada.




O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.



Que ideia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).



O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.



Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?



«Constituição íntima das cousas»...

«Sentido íntimo do Universo»...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em cousas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.



Pensar no sentido íntimo das cousas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.



Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!



(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)



Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.



Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.



E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.
 
Alberto Caeiro

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Dia Internacional para a Erradicação da Violência Contra as Mulheres - “Menina não entra”… mulher morre

A igualdade é igualdade de poder. E ou isso se afirma todos os dias em todos os sítios ou não acontece. Não há poderes iguais teóricos. Só há poderes iguais exercidos. Não existe igualdade em princípio; ou existe ou não existe.


Na sexta-feira a Assembleia da República aprovou - sem os votos do Bloco de Esquerda - as listas de representantes para o Conselho de Estado e para o Conselho Superior de Defesa Nacional. E só indicou homens para os dois órgãos. No Conselho de Estado continuará a existir apenas uma mulher entre 18 homens. O Conselho Superior de Defesa Nacional não tem nenhuma mulher.

Na Assembleia da República a lei das quotas ajudou mas não chega. São 68 deputadas em 230. Na Conferência de Líderes, que reúne o Presidente da Assembleia da República e os líderes das bancadas parlamentares, só há uma mulher. Os 13 presidentes das Comissões Parlamentares são homens.

No Governo são 5 Ministras em 16 Ministérios e 5 Secretárias de Estado num total de 38 Secretarias de Estado.

Todas as principais figuras do Estado são homens: Presidente da República, Presidente da Assembleia da República, Primeiro-Ministro, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Presidente do Tribunal Constitucional, Presidente do Supremo Tribunal Administrativo, Presidente do Tribunal de Contas, Ministros de Estado.

Nas 308 autarquias só há 21 mulheres Presidentes de Câmara: há quatro mulheres Presidentes de Câmara no conjunto das 13 autarquias do Distrito de Setúbal e nas 21 de Santarém; há duas no total das 11 autarquias de Castelo Branco, como nas 15 de Portalegre e nas 16 de Lisboa; há uma Presidente da Câmara nas 10 autarquias do distrito de Viana do Castelo, como nas 12 de Bragança, nas 16 de Faro, nas 17 de Coimbra, nas 18 do Porto e nas 24 de Viseu; no distrito de Aveiro em 19 autarquias não há nenhuma mulher Presidente de Câmara, como não há me nenhuma das 14 autarquias do distrito de Beja, Braga, Évora, Guarda ou Vila Real, nem em nenhuma das 16 autarquias do distrito de Leiria. Nos Açores há uma Presidente de Câmara em 19 autarquias e na Madeira não há nenhuma mulher à frente de nenhuma das 11 câmaras municipais.
Em 2008 foram assassinadas pelos companheiros ou ex-companheiros, pelo menos, 43 mulheres. Até final de Maio de 2009 foram assassinadas 11. Na última semana foram duas.

Amanhã é o Dia Internacional para a Erradicação da Violência Contra as Mulheres. Em Portugal a maior causa de homicídios é a violência doméstica. E mata mulheres. A Assembleia da República - e bem - não deixará de assinalar o dia na próxima sessão plenária. É urgente que faça bem mais do que assinalar.

"A origem da violência de género encontra-se em causas sociológicas que levaram as mulheres a defrontarem-se com uma situação de desigualdade real em relação aos homens. A discriminação de género subsiste e contribui para a manutenção de desigualdades de oportunidades e de poder, que também se manifestam sob a forma de violência."


Catarina Martins

sábado, 7 de novembro de 2009

Solidariedade e apoio monetário aos 3 eco-activistas acusados pela acção não-violenta realizada em 2007 no Algarve contra o milho transgénico


ELES DISSERAM NÃO AOS TRANSGÉNICOS
Apoio aos activistas anti-transgénicos

O Ministério Público deduziu acusação a 3 eco-activistas pela acção não-violenta de destruição de milho transgénico no Algarve ocorrida em Agosto de 2007.

Acontece que as acusações conhecidas são completamente infundadas.

Na verdade, nenhum dos três activistas cometeram os crimes de que são acusados pelo Ministério Público, limitando-se a servirem de contacto no local com os vários órgãos de imprensa presentes no momento dos acontecimentos, nunca tendo realizado qualquer acção material que se traduzisse em danos materiais e muito menos acções violentas sobre quem quer que seja.

Todas as imputações do Ministério Público são, pois, falsas e infundadas.

Para ajudar a fazer face às despesas do processo judicial de que são alvo, existe uma conta bancária para onde podem ser depositadas os contributos monetários de quem se sente solidário com aqueles activistas, injustamente acusados:

Pedro Filipe Prata,
Banco Espírito Santo,
Conta 0006 0947 8355,
NIB 0007 0000 00609478355 23,
IBAN PT50 0007 0000 0060 9478 3552 3,
SWIFT/BIC BESCPTPL


Além do apoio monetário podes assinar a seguinte petição online:

Eu, abaixo-assinado, quero manifestar a minha solidariedade com a acção do Movimento Verde Eufémia, que ceifou 1 hectare de milho geneticamente modificado MON810, na Região Livre de Transgénicos do Algarve, a 17 de Agosto de 2007.

Apoio moralmente todas as pessoas, movimentos e organizações que sofrem consequências legais, políticas ou pessoais em consequência da acção do Movimento Verde Eufémia.

O meu apoio é baseado no conhecimento de que:

- eu e outros cidadãos vivemos actualmente num estado de emergência, em consequência da contaminação genética causada pela libertação deliberada no ambiente de organismos geneticamente modificados (OGM);

- esta contaminação expõe, a mim e outros cidadãos e cidadãs, a riscos sociais, económicos, ecológicos e de saúde;

- os nossos governos representativos não intervêm o suficiente no sentido de proteger-nos dessas ameaças;

- agir agora é necessário para evitar que se desenvolvam mais efeitos negativos irreversíveis;

- os métodos de acção que operam dentro dos limites legais só podem atingir os seus resultados na totalidade quando complementados pela acção da sociedade civil, que pode ocorrer fora desses limites.

Assim, considero que:

- este estado de emergência exige que os cidadãos e cidadãs comuns protestem contra o uso de organismos geneticamente modificados na agricultura;

- é moralmente justificável e legítimo realizar acções de desobediência civil contra o cultivo de OGM, uma vez que os meios legais não provaram atingir resultados suficientes;

- a defesa dos direitos humanos, em particular os que dizem respeito à protecção da cadeia alimentar e do ambiente da contaminação genética, não podem resultar em perseguição política.

Assinar em
http://gopetition.com/online/21252/sign.html
Via Pimenta Negra

O meu Deputado Preferido , José Soeiro questiona Ministra do Trabalho, ou a minha Vida em debate no Parlamento

Adão & Ivo

Nos primórdios da humanidade, no tempo em que os animais falavam, homens e mulheres viviam felizes no jardim do Eden.

Nesse imenso jardim reinava a justiça suprema. A verdadeira igualdade entre homens e mulheres era uma realidade. Todos tinham os mesmos direitos e deveres, até na formação de casais. Naquela época era normal o amor entre um homem e uma mulher, ou uma mulher e uma mulher ou um homem e outro homem, sem nenhum deles julgar-se superior ao outro.

Porem, nesse paraíso onde se vivia na maior abundância, havia uma restrição. Era proibido tocar ou comer os frutos de uma macieira plantada no meio do jardim.

Sucumbindo à tentação, Adão e Ivo, o primeiro casal homossexual da História Universal, comeram o fruto proibido e foram condenados por Deus Todo Poderoso. E a sentença foi muito pesada.

A partir daquela altura Adão e Ivo foram considerados anormais, sofreram discriminação, sendo ignorados e censurados pelo resto da sociedade. Diferentemente de outros casais que se amam, eles nunca mais puderam casar oficialmente. Em suma, as suas vidas passaram a ser um autêntico inferno.

E, mesmo agora, em que qualquer pessoa come maçãs à vontade, os descendentes de Adão e Ivo continuam a pagar pelo pecado original. Em muitos países ainda lhes são negados partes dos seus direitos civis e noutros são maltratados, presos ou até condenados à morte.

Mas pensando bem, todo o mal que acontece neste embróglio parte de Deus. Foi Ele que pôs a macieira bem no meio do quintal à vista de todos. Coitados dos seus súbditos que cairam na armadilha.

Só que, um Deus que faz sofrer, que discrimina, prende ou mata, não existe. E todos os que o defendem ou agem como Ele, são seguidores do Diabo. No fundo, essa coisa de condenar os homossexuais, só pode ser mais uma das fantasias de Satanás, transvestido de Criador do Universo.

De certeza que existe uma história mais feliz para o Deus verdadeiro. O nosso Deus, pai da misericórdia, do perdão, da igualdade entre as pessoas, da concórdia, merece melhor: Que em todos os países e em todas as religiões, homossexuais e heterossexuais sejam considerados irmãos. Assim seja (Amen)!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

FERVE: Testemunho Formador do IEFP

Trabalho há praticamente treze anos exclusivamente para o IEFP e para empresas de gestão protocolar do IEFP, como formador. Desde 1996 que passo recibos verdes e sofro com a precariedade.

É que a formação por vezes pára alguns períodos, havendo que realizar alguns trabalhos de organização que são feitos gratuitamente para podermos manter esperanças de continuar a dar formação. Nestas alturas a "corda na garganta" aperta e já estive muitas vezes desesperado... Com tudo isto não tenho direito a subsídio se for posto na rua por não haver formação, nem a estar de baixa ou dar assistência à minha família se necessário.

Aparentemente, no final do ano até tenho razoáveis rendimentos (< 25000€) mas tenho de pagar Segurança Social, impostos, custos muito grandes de deslocações pois a formação é feita em locais diversos (por vezes ando mais de 1000km por semana), refeições, etc... Feitas as contas, temos um trabalho que é altamente qualificado pago ao preço da chuva.

Tenho 41 anos e apesar de ir tendo trabalho, tenho também a certeza que vou pagar caro esta minha paixão pela formação profissional. Perspectivam-se mudanças nos próximos anos. A formação profissional por parte do Estado, a continuar nos moldes actuais, vai terminar rapidamente.

A qualidade da formação está a baixar tremendamente o que conduzirá ao descrédito e ao final. Nessa altura ficarei com uma mão à frente e outra atrás....

Fernando Marques

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

PS Impõe disciplina de voto no casamento homossexual

O PS vai legislar a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo através de uma proposta do Governo. Que não admitirá a extensão desse direito à adopção de crianças, como nos casais heterossexuais. A direcção da bancada já decidiu: haverá disciplina de voto. A ideia de um referendo ganha "volume" mas os socialistas rejeitam-na. O BE também

Dentro em breve, o Governo apresentará na Assembleia da República uma proposta legalizando a possibilidade de duas pessoas do mesmo sexo se casarem pelo civil e, ao que apurou o DN, na bancada socialista haverá discipli- na de voto. Só serão admitidas duas excepções: Maria do Rosário Carneiro e Teresa Venda, as independentes democratas-cristãs que integram o grupo em nome do Movimento Humanismo e Democracia.

Nestas questões de costumes, o PS costumava permitir o direito generalizado à liberdade de voto no seu grupo parlamentar. A direcção considera no entanto que todos estão vinculados à disciplina porque esta foi uma matéria de compromisso eleitoral do partido.

O chamado "casamento gay" foi tema de conversa anteontem à noite, numa reunião da bancada do PS. Se dúvidas existiam, elas ficaram dissipadas: a proposta de lei que o Governo apresentará não irá admitir aos casais homossexuais o direito de adoptarem crianças porque, segundo explicou Francisco Assis, isso "não constava no programa eleitoral" dos socialistas.

Isto ao contrário do que defendem o Bloco de Esquerda e o PEV, os dois partidos com projectos já apresentados na mesa da Assembleia da República. E também ao contrário do que pensa um estreante na bancada do PS, o deputado Miguel Vale de Almeida, assumidamente homossexual e figura de proa, há muito tempo, em defesa das causas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais).

Falando ao DN, Vale de Almeida, ex-militante do Bloco de Esquerda, reafirmou que defende também o direito de os homossexuais casados adoptarem crianças. Mas acrescentou não ver a posição do PS como um retrocesso: "Não, não estou desiludido", afirmou. Explicando: "Aquilo que as pessoas têm vindo a lutar como prioridade é o casamento."

Apesar de o PS, por um lado, e o Bloco e o PEV, por outro, terem perspectivas divergentes sobre a adopção, isso, garantiram ao DN várias fontes parlamentares, não constituirá nenhum bloqueio. Dito de outra forma: por acordo à esquerda, será consagrada a legalização do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. Mas sem o direito de adoptarem, devido à oposição do PS.

Registe-se que o PEV evoluiu da última legislatura para a actual, passando a defender a adopção. É algo que não merece a concordância do PCP, partido liderante da CDU. Na última legislatura, quando o casamento gay foi a votos, por iniciativa do BE, os comunistas votaram a favor do projecto do PEV (que não abrangia a adopção) e abstiveram-se perante o do Bloco de Esquerda (que abrangia).

Se a "doutrina" do PCP se mantiver quando o casamento gay voltar à agenda parlamentar - algo que poderá acontecer ainda este mês -, então os comunistas deverão votar a favor da proposta do Governo, abstendo-se nas do BE e do PEV, precisamente por causa do direito de adopção, com o qual não concordam.

DN/Sapo

domingo, 12 de abril de 2009

Encontro nacional de activistas pela igualdade no acesso ao casamento civil de pessoas do mesmo sexo e contra a homofobia


Justificação da proposta
O recente compromisso do Partido Socialista para resolver na próxima legislatura a discriminação legal que impede pessoas do mesmo sexo de terem acesso ao casamento civil, coloca esta questão no primeiro plano do debate político.

A reacção dos sectores mais conservadores, com a hierarquia da Igreja católica em destaque, tem-se pautado por violentos ataques argumentativos que não escondem uma homofobia declarada, em que um dos argumentos principais será a falta de competência das pessoas homossexuais para terem crianças a seu cargo. Nesta perspectiva, o casamento é encarado como um passo que antecede a possibilidade de adopção e com ele o reconhecimento da legitimidade social das famílias em que os membros do casal possam ser pessoas do mesmo sexo. A “destruição da família, célula base da sociedade”, dizem.
Por outro lado, há quem conteste a “oportunidade” do PS para avançar com esta proposta. É o argumento da “irrelevância” da questão, em que o facto de se tratar de uma população minoritária em que, para mais, muitos dos seus elementos não pensam de facto casar, serve de argumento para o debate público. Como se a igualdade de direitos de todos e de todas face ao Estado não fosse um elemento fundamental da organização da sociedade. Como se as leis fossem só para os segmentos maioritários da população.
Nesta duas vertentes dos opositores da igualdade, espera-nos um debate intenso, que em grande medida, está já em curso e que previsivelmente só terminará com a igualdade consagrada na lei.
A intervenção dos colectivos LGBT e de diferentes activistas e pessoas que se têm posicionado neste debate, tem naturalmente sido o contraponto a estes argumentos conservadores. Na sua imensa maioria com eficácia e dignidade.
Porém, a necessidade de intensificarmos a presença no espaço público dos argumentos favoráveis à igualdade, de agilizarmos os canais de comunicação internos que sirvam para um debate profícuo e capaz de responder às estratégias conservadoras, justificam a presente proposta.

Um Encontro Nacional de activistas por esta causa será por si só um elemento de convergência fundamental para espelhar a diversidade do movimento, mas também as suas alianças estratégicas e, estamos certos, a sua capacidade de encontrar terrenos comuns para uma resposta concertada e eficaz que consiga ganhar a disputa de opinião pública que se trava neste momento com a homofobia.




Data e local
26 de Abril em Lisboa, na sede do SPGL, Rua Fialho de Almeida, 3 (metro S. Sebastião)


Objectivos
Estruturar uma rede de activistas em torno do tema do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, com debate estratégico e capacidade de marcar o espaço do debate público.
Aprovação de um texto comum que resulte de um compromisso partilhado e capaz de servir de base a iniciativas capazes de aglutinar, nas suas várias vertentes, as muitas pessoas que se têm pronunciado sobre o tema e todas as outras que ainda não o fizeram mas cujo contributo poderá ser fundamental.

Articulações
Nesta perspectiva, a importância do momento que vivemos, determina em grande medida o activismo dos próximos tempos. Ganharmos ou perdermos este debate deixará marcas profundas no que seremos capazes de fazer no futuro, como no espaço de legitimidade social da homofobia e do preconceito.

As Marchas de 2009 terão que reflectir este debate e procurar serem momentos importantes de afirmação dos nossos argumentos e de capacidade de mobilização de todas as pessoas pela igualdade de direitos. Sem esgotarem a capacidade de iniciativa e de realização conjunta, as Marchas são momentos de festa e de luta. Este ano terão que ser participadas por muito mais pessoas que no passado e teremos que ser capazes de transmitir essa urgência cívica que se traduza em mobilização e opinião pública capaz de enfrentar com sucesso a homofobia.

Mas também teremos que marcar presença noutros momentos fundamentais como o são as manifestações públicas de comemoração do 25 de Abril e do 1º de Maio, como são as festas populares de Junho em Lisboa e no Porto, ou as campanhas eleitorais para o Parlamento Europeu e Assembleia da República.
Articular um movimento com capacidade de marcar presença em todo o território nacional e também fora dos grandes centros urbanos, estimulando a constituição de grupos locais com iniciativa e capacidade de resposta, apoiando a cidadania que se queira exprimir a propósito deste debate.

Texto de contributo das Panteras e que serviu para enquadrar a discussão desta proposta, em reuniões onde estiveram presentes representantes da APF, Ilga Portugal, Médicos Pela Escolha,Não Te Prives, Panteras Rosa, Rede de Jovens Pela Igualdade, Rede ExAequo, Rumos Novos, SOS Racismo, UMAR